terça-feira, 3 de junho de 2008

UMA NOVA PROMESSA DO HUMOR



Por Joannes Lemos

Em 1999, a TV Globo colocava no ar o humorístico Zorra Total, que na época entrou na grade da emissora nas noites de quinta-feira, com a missão de conter o sucesso do programa “Ô Coitado”, do SBT. Porém, massacrado pela atração da atriz Gorete Milagres, o programa global perdeu espaço e foi parar nas noites de sábado, onde está até hoje. No início o Zorra Total tinha em seu cast um elenco estelar, como Cláudia Gimenez, Chico Anysio e Denise Fraga. Depois de um tempo, a atração sob o comando de Maurício Sherman foi ganhando toques mais populares, e humoristas de menos peso ganharam espaço.

Novas promessas do humor brasileiro foram lançadas no programa, como Maria Clara Gueiros (Márcia), Fabiana Karla (Dr.ª Lorca), Welder Rodrigues (Jajá) e Samantha Schmutz (Juninho Play). Mesmo com a qualidade de alguns humoristas, o Zorra sempre recebeu críticas negativas – em sua maioria. Ultimamente, porém, o que temos visto são esquetes mais consistentes e com uma pitada de ironia politicamente incorreta, e não menos construtiva. Seja o olho gordo que remete ao egoísmo e inveja da sociedade em que vivemos, seja a gula compulsiva de uma gordinha nutricionista que é feliz com o que come, e não com os regimes cada vez mais loucos que muita gente faz de olho em um corpo de capa de revista.

Recentemente apareceu um dos quadros mais engraçados dos últimos tempos do programa global. Trata-se do quadro de Lady Kate. Interpretado pela atriz estreante em TV, a carioca Katiuscia Canoro, a esquete abre todas as edições do programa e se transformou em um dos maiores sucessos de audiência do humorístico. Com um humor bem simples e popular, os bordões de Lady Kate já estão na boca do povo. “To pagaaano!” e “Dinheiro eu tenho, só me falta-me o gramour!” estão virando mania nacional. Com seu visual de perua que acabou de entrar para a elite, Lady Kate é riso certo. Isso só é possível porque a personagem é interpretada pela já citada Katiuscia Canoro, apontada como a nova Maria Clara Gueiros do Zorra Total (e que hoje interpreta a Suzy na novela das 19hs, Beleza Pura).

O tom de ironia do quadro é certo, e cada um interpreta como quer. Em todas as esquetes de Lady Kate, a personagem sempre diz para seu personal society Glauber que ela saiu de uma situação difícil depois que apereceu em sua vida um senador. O que dá a entender que só com uma ajudinha da política ela pôde entrar para a high society brasileira, e com um belo golpe do baú agora pode ter uma vida de quase celebridade. Engraçado, mas conheço uma história parecida que aconteceu há pouco tempo em Brasília. Nao importa, é passado. O que importa é que com seu linguajar claudicante a Lady Kate da impagável Katiuscia Canoro é garantia de boas risadas nas noites de sábado. O Zorra Total ainda tem salvação.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

QUEM É O MAIS COITADO?


Por Joannes Lemos

A raça humana parece mesmo ter perdido a noção de solidariedade, humanidade, reciprocidade. Amor então nem se fala. Não vai demorar para os inventores de plantão criar uma espécie de amormômetro(termo criado aqui), para medir a intensidade de amor que existe em cada um. Os valores bons vão embora, e os sentimentos de ira, raiva, ódio, esses se impregnam cada vez mais em nosso cotidiano.
A mistura de sentimentos bons que ainda nos restam, junto com os sentimentos ruins que pipocam pela humanidade, se misturam com outros sentimentos que ficam em cima do muro. Com a mais recente tragi-novela brasileira – que estreou no dia 29 de março – sem data prevista para acabar, o sentimento de pena ficou ainda mais evidente. Pela definição, coitado quer dizer desgraçado, infeliz, mísero. Ou seja: Pobre dele, ou dela. Mas, com toda reviravolta do caso Isabella Nardoni, impiedosamente assassinada, a pergunta que fica é: Coitado de quem?
Coitadinha da menina Isabella, um brotinho que teria uma longa vida pela frente, se não fosse submetida à brutalidade de pessoas insanas, tendo a vida interrompida precocemente?
Coitados de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, duas pessoas que deveriam privar pela segurança da menina, e, acredita-se, são os mal-feitores que liquidaram a vida da criança?Coitada da imprensa, que desesperada por uns pontos a mais na audiência, uma vendagem a mais de jornais e revistas, e uns cliques a mais nos sites informativos, mobilizam dúzias de equipes de jornalistas para a fatídica cobertura jornalística?
Coitados dos jornalistas, que na obrigação de atender aos anseios e mandos dos patrões, acabam se engalfinhando pelo melhor ângulo de câmera, pela melhor fonte, pela melhor foto, pelo grande furo do capítulo do dia?
Coitada da Sonião Abrão, que passa horas à fio a frente de um programa vazio, sensacionalista, fazendo a cobertura do calvário de uma família?
Coitado do Lula, que vê o espaço que poderia ser dedicado aos bons momentos de seu governo perdido para o sensacionalismo?
São muitos coitados e muitos sofredores, numa lista que se presume longa. Fica até difícil saber quem é o mais coitado. A Sonia Abrão certamente não é. O programa dela é descartável, hipócrita, sujo. Ela faz aquilo porque gosta. Vive da carnificina alheia. É o urubu em forma de pessoa fútil. Vergonhoso dizer que é feito por profissionais de comunicação.
Alexandre Nardoni e Anna Jatobá até tentaram se fazer passar por infelizes em uma entrevista exclusiva. Mostraram-se bons atores e deixaram outras emissoras de televisão com sentimento de coitadinhas, frente ao furo da Globo. Todas as emissoras só pensam, no atual momento, em seguir, perseguir ou conquistar, custe o que custar, o caminho da liderança. Mesmo que a audiência a mais conquistada ultimamente não se traduza em faturamento maior.
O Lula também não é o mais coitado. Se por um lado as pessoas esquecem que seu governo anda de vento em polpa, por outro também nem lembram do escândalo dos cartões, da máfia das sanguessugas, dos mensaleiros (por onde andam?), da mancada da mãe do PAC...
Existem outros quase coitados: a menina Isabella sofreu antes de morrer, sentiu dor, agonizou nos últimos momentos de uma breve vida, numa situação dantesca que nenhum ser humano merece passar. E ainda por cima a memória que fica dela é de uma criança que morreu brutalmente. Ela precisa descansar em paz. Mas hoje ela está em um lugar muito melhor do que o nosso. Pelo menos ela teve a oportunidade de não se misturar com as sujeiras a que todos somos submetidos e apresentados na medida que crescemos. Certamente ela será um lindo anjo, mesmo que muitas pessoas não acreditem em céu e em seres superiores. Deus está olhando por ela.
Enquanto isso, aqui embaixo, coitados dos jornalistas e da nossa imprensa. Parece que a cada dia perdem mais o rumo da sensatez, já que tudo é motivo de banalização, fruto da sociedade do espetáculo cada vez mais mergulhada na vulgaridade.
A bem da verdade, somos todos coitados. Apesar de sermos rotulados como os únicos seres racionais, não aprendemos ainda a controlar nossos impulsos. Parece que agimos apenas por instinto. Não aprendemos a usar a balança, onde sentimentos bons devem pesar mais que os sentimentos ruins. E o pior é que ainda nem sabemos como classificar o sentimento de pena. Nós somos os mais coitados!!

sexta-feira, 11 de abril de 2008

A DEUSA VENCIDA


Por Joannes Lemos

O Espírito Santo nunca bombou tanto na mídia internacional como nas últimas semanas. O aeroporto de Vitória, que já é de proporções mínimas, ficou ainda menor quando um batalhão de jornalistas da imprensa local, nacional e internacional – muito chique isso - deu um rebuliço a mais no até então pacato lugar. Tudo para receber, ou melhor, fotografar, perguntar, cotovelar, enfim, urubuzar mesmo, aquela que foi apontada como uma das responsáveis pela renúncia de Eliot Spitzer, ex-governador de Nova York.
Andréia Schwartz, 31, nasceu em Vitória. Quando ainda criança seus pais se divorciaram e ela foi morar com o pai em Colatina, norte do Estado. Aos 13, voltou para a casa da mãe, época que começou a ajudá-la como manequim numa pequena loja de biquínis. Quando da ocasião de uma feira de carros em Vila Velha, Andréia foi vista e admirada por representantes de uma empresa, que imediatamente a levaram para o Rio de Janeiro. Lá, ela conheceu muita gente, fez contatos e engatou namoro com um italiano. Em 1997 foi morar fora, conheceu mais pessoas, terminou o namoro, começou outro, num jogo de xadrez onde as jogadas se repetiam constantemente, mas o xeque-mate nunca chegava.
Mas, num belo dia - só para usar um trocadilho batido - Andréia foi parar na capital mais famosa do mundo. E lá os sonhos de menina passaram como de relance em seu globo ocular, e os altos prédios de Manhattan pareciam cada vez mais reais nas possibilidades dessa ‘empreendedora’, como ela gosta de se definir. Ela não exagera. O primeiro apartamento que ela comprou em Nova York custou apenas US$ 1 milhão de dólares. Fica até difícil entender como as leis americanas dão espaço para que um estrangeiro ilegal, ainda por cima latino-americano, compre um apartamento nesse valor. Ela o revendeu por US$ 1,6 milhão. Isso que é ter espírito empreendedor e tino para os negócios. Em entrevista concedida para alguns veículos de comunicação, a excêntrica Andréia disse que sua coleção de sapatos, bolsas e vestidos consumiu US$ 200 mil.
Vivendo ilegalmente em Nova York, mas morando bem e com uma teia diversificada de contatos, Andréia começou a se envolver com negócios obscuros. Segundo a imprensa americana, Andréia trabalhou como prostituta de luxo no Emperors Club Vip e depois montou a própria rede em seu apartamento. Lá, a polícia encontrou 7 gramas de cocaína. Mas ela insistiu e é categórica: “Não sou prostituta nem cafetina”. Ela pode até não ser uma sirigaita, marafona, dissoluta e ardilosa, mas também não deve ser flor dos mais belos jardins.
As más e boas línguas dizem que ela agenciava encontros do ex-governador de Nova York com prostitutas de luxo, em programas que custavam US$ 4 mil por cada hora. Presa e solta, ela afirmou que não foi favorecida com a delação premiada, que ocorre quando um condenado ajuda as autoridades com informações importantes em algum caso, em troca de relaxamento de pena. Se ela ajudou ou não o FBI nas investigações isso só ela própria e a polícia americana sabem.
Durante os anos em que morou nos EUA, Andréia freqüentou os mesmos eventos por onde circulavam pessoas ilustres como o ator Bruce Willis, a cantora Beyoncé e políticos influentes. Por causa da ambição desmedida, hoje, ao invés de usar sua coleção de relógios caros, como um autêntico Rolex, ela precisa ver as horas em um relógio Dumont emprestado pela mãe. Seu apartamento na cobiçada Ilha de Manhattan foi seqüestrado pelo governo americano, assim como os outros bens que possuía na terra do Tio Sam. Aqui no Brasil, nem casa própria tem. Na casa da família ela não fica. Prefere ficar escondida na casa dos amigos para ficar distante da imprensa, inclusive da internacional. Ela está podendo. É a celebridade do momento. Agora só falta ela se inscrever no BBB9 como modelo, miss ou dançarina, e assim projetar de vez nosso Estado. Mais uma vez como patinho feio. As Organizações Globo agradecem.

quinta-feira, 13 de março de 2008

O CÉU ESTÁ NO LIMITE


Por Joannes Lemos

Mês de março, feriadão da Semana Santa à vista. O que isso quer dizer? Centenas de milhares de pessoas vão pegar as estradas para visitar seus parentes e amigos, em mais um típico enforca-estica-e-puxa dos nossos feriadões. Mas feriadão no Brasil também é sinônimo de aeroportos cheios, e como conseqüência dor de cabeça para quem vai viajar. Pobre coitado de quem ficar por longos períodos de espera na fila do check in. Aliás, pobre não, porque a política econômica de Lula ainda não foi capaz de dar oportunidade para que os menos favorecidos do nosso país pudessem viajar de avião, apesar de que nunca antes na história deste país tantas pessoas pegaram a ponte aérea.
O fato é que os passageiros do nosso sistema aéreo não deveriam se preocupar apenas com os atrasos nos aeroportos. Antes fosse só isso. Afinal, um pouco de impaciência não mata ninguém. Mas infelizmente avião que cai mata, e como mata. E problemas de equipamentos podem provocar acidentes, e como podem. E controladores de vôo super-estressados também podem provocar acidentes – e a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco. Passados oito meses do maior acidente aéreo brasileiro, com o avião da TAM, em julho passado em São Paulo, tudo parece estar na mais absoluta paz. Afinal de contas, nunca antes na história deste país nossas reservas cambiais estiveram tão polpudas. O problema é que ainda continuam acontecendo muitos quase acidentes que poderiam e podem virar uma nova tragédia. Documentos inéditos da Aeronáutica divulgados pela edição 506 da revista Época revelam situações de alto risco de acidentes no espaço aéreo brasileiro. A descrição de um quase acidente pode ser conferida a seguir:
“No dia 12 de junho do ano passado, o airbus 319 da Presidência da República, conhecido como Aerolula, decolou do Aeroporto Internacional de Guarulhos por volta das 15h30. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participara do 7º Congresso Nacional dos Metalúrgicos da CUT e voltava para Brasília. Toda vez que o avião da Presidência da República liga o motor, o controle de tráfego aéreo redobra a atenção. As distâncias entre as aeronaves são ampliadas e o controlador passa a tratar como prioridade o avião que aparece na tela de controle com a sigla FAB01, o principal avião da frota da Força Aérea Brasileira. Naquele dia não foi diferente. O Aerolula era o centro das atenções. Até que uma pane na sala de controle de Guarulhos apagou três dos quatro consoles, os aparelhos que permitem a visualização das aeronaves. Com apenas um deles funcionando, o controlador responsável pela segurança da aeronave presidencial passou a monitorar também outros 13 aviões. Naquele instante, um Boeing 777 da Alitalia, prefixo AZA677, que decolara de Guarulhos rumo à Itália, se aproximava rapidamente de um avião bimotor particular prefixo PT LYZ. Havia alto risco de colisão. O controlador de vôo, percebendo a possibilidade do acidente, desviou a trajetória do avião italiano. Mas, como a rota das duas aeronaves previa uma curva logo adiante, o desvio determinado acabou jogando uma aeronave contra a outra. Apenas 30 metros separaram a barriga do avião da Alitalia do teto do bimotor. Parece uma distância longa. Para aviões a uma velocidade média de 900 km/h, não é. A margem mínima de segurança, determinada por padrões internacionais, é 300 metros”.
Por pouco o presidente Lula assiste de camarote a mais um acidente aéreo, mais um para o currículo da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Quando entrou em cena para tentar resolver a batata quente, Nelson Jobim, ministro da Defesa, disse: “Aja ou saia, faça ou vá embora”. Passados alguns meses a frente do ministério pouca coisa mudou, como a queda (calma, não é a de outro avião) no número de conexões e escalas no aeroporto de Congonhas. O assunto está esquecido, muito esquecido. Não adianta fazer um movimento como o Cansei. É preciso fazer vários movimentos desse tipo. Precisamos lembrar aos brasileiros o que aconteceu, já que somos uma nação que esquece com facilidade das coisas que aconteceram ontem. Afinal, depois de votar inúmeras vezes pro Marcelo sair do BBB as pessoas só poderiam mesmo ficar alienadas.
A impressão que fica é que escândalos políticos vêm e vão para fazer esquecer dos problemas mais sérios. O cartão da tapioca deu o que falar, mas uma CPI dos Cartões Corporativos só vai dar em pizza, pra variar. Está na hora de Brasília se mexer, inclusive o Lula.
Por falar em Brasília, o aeroporto de lá é o campeão de atrasos no mundo. Coitado dos candangos...

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

EU PAGO, TU PAGAS, ELES NÃO PAGAM


Por Joannes Lemos

O Brasil certamente é o país do paradoxo. Diferenças de todo tipo você encontra aqui mesmo, na república das bananas. Diferenças econômicas, políticas, raciais, ideológicas e outras mais estão inseridas em nosso cotidiano, mesmo porque estamos em um país de dimensões continentais. Tais diferenças devem ser tratadas com cuidado para que todos convivam em um ambiente de respeito mútuo.
Mas certas diferenças não podemos aceitar, e muitos menos compreender. Enquanto muitas famílias fazem malabarismos para passar um mês apertado com pouco mais de R$ 100 do programa Bolsa-Família, funcionários do alto e baixo escalão do governo federal fazem a festa usando e abusando dos cartões corporativos que o governo distribui entre alguns de seus funcionários. E mais uma vez nós contribuintes vamos bancar essa exorbitância.
Ao mesmo tempo em que muitas famílias espalhadas pelos mais inóspitos rincões do Brasil se preocupam em encher a sacola com arroz e feijão – e para muitos, graças ao programa de distribuição de renda do governo – funcionários da administração federal parecem, mais preocupados ainda, em usufruir das benesses do maravilhoso cartão Ourocard Corporate Gold Visa. E na lista de mimos não existe feijão nem arroz. Que tal gastar R$ 99,44 na padaria Belini, uma das mais sofisticadas de Brasília? Achou pouco? Então que tal comprar R$ 3.762,40 em carnes numa butique de carnes de Brasília, compra esta feita pela Secretaria de Administração da Presidência. Preste atenção porque a compra foi feita em uma butique de carnes, não em um açougue qualquer. Está tudo no Portal da Transparência (
www.portaltransparencia.gov.br).
Já o ministro do Esporte, Orlando Silva, usou o cartão para pagar diárias de hotel no Rio de Janeiro num fim de semana, não apenas para ele, mas para toda a família, incluindo a babá, num total de R$ 2.791. Ele não estaria fazendo nada de errado se o cartão estivesse pagando diárias de hotel apenas para ele em viagens de trabalho. Assim foram sendo criados os abusos com o cartão corporativo do governo federal, uma ferramenta existente em muitos países para facilitar a fiscalização, mas que vêm dando mais dor de cabeça à Controladoria-Geral da União (CGU) e ao Tribunal de Contas da União (TCU), encarregados de investigar os maus gastos. O sistema é mais fácil de controlar do que as notas fiscais usadas para comprovar despesas, já que as notas fiscais são fáceis de falsificar, ao contrário das faturas do cartão de crédito. O problema é que a fatura do cartão não designa o produto consumido, apenas o local da compra. Mas isso não representa um grande obstáculo para descobrir os abusos. Foi assim que caiu Matilde Ribeiro, ex-ministra da Igualdade Racial, de um dos 200 ministérios do governo Lula. Ela gastou R$ 416,16 em uma loja de produtos importados em um aeroporto. Disse que fez confusão e pagou com o cartão errado. Mas a mesma ex-ministra gastou R$ 121.900 em uma locadora de automóveis. Dúvida? Está tudo no Portal da Transparência. É um pouco trabalhoso procurar, mas vale a pena.
Assim, só em 2007, foram gastos R$ 78 milhões com o uso do cartão pelos funcionários do governo federal. É muito, mas está abaixo dos R$ 108,3 milhões gastos pelo governo de São Paulo com seu cartão versão estadual. Ainda por cima, o estado paulista não divulga os gastos na internet como o governo federal. Uma prática desleal num período em que o corte de gastos públicos e o enxugamento da máquina administrativa está em pauta. Não podemos e nem temos o direito de alçar o cartão corporativo como o vilão da história. A culpa está na falta de honradez de quem faz uso desse benefício – e que benefício – do governo federal. Vamos esperar para ver se uma outra desgastada CPI, dessa vez dos cartões corporativos, trará algum resultado, efeito raro em se tratando de CPI.
Enquanto isso, nos armarinhos, mercearias e mercadinhos de pontos humildes do Brasil, ou seja, em tudo quanto é lugar, os Josés, Marias e Pedros fazem o que podem para levar para suas respectivas mesas o feijão, arroz, batata, pão, leite...

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

ELES USAM BLACK TIE



Por Joannes Lemos

"Meu nome não é Johnny, meu nome é João. Não sou bandido, não sou nenhum Pablo Escobar, não tenho quadrilha, não tenho fortaleza, não tenho dinheiro na Suíça. Se eu fosse tão poderoso assim, minha família não ia estar vendendo o único imóvel para pagar a minha defesa. Eu usava droga, vendia, ia usando, ia vendendo...”
Certamente essa é uma das cenas que mais emocionam no longa Meu Nome Não é Johnny (Brasil, 2008, 107 min.), dirigido por Mauro Lima e adaptado do livro homônimo do jornalista Guilherme Fiúza. Literalmente incorporando João Guilherme Estrella, o Johnny do título, o ator Selton Mello dá um banho de interpretação na pele de um dos maiores fornecedores de cocaína do Rio de Janeiro do final dos anos 80. Em foco, o tráfico de drogas.
Muita gente pode considerar a abordagem desgastada, mesmo porque filmes recentes, inclusive de muito sucesso, tiveram a mesma temática como pano de fundo. Caso de Tropa de Elite. No entanto, Meu Nome Não é Johnny mostra um outro lado do tráfico, aquele encabeçado por jovens de classe média que fazem as vezes de traficante, filhos de famílias abastadas, com boa educação, inglês e espanhol no currículo, viagens à Disney e com roupinhas de grife no closet.
Apesar de se passar entre os anos 80 e 90, o filme de Mauro Lima não poderia ser lançado em um momento mais oportuno. Cresce cada vez mais o envolvimento de jovens de classe média e alta nos negócios ilícitos do dinheiro fácil. Vendendo uma ‘balinha’ aqui e ali, esses jovens inicialmente fazem negócios apenas com amigos. Mas, ao perceberem que o ramo rende uns bons trocados sem muito esforço, a minguada mesada dos pais parece não ser mais suficiente para atender aos desejos de consumo. Em novembro passado – só para ficar em um exemplo, pois são muitos – foi presa Jéssica de Albuquerque Corrêa, de 18 anos. Filha da classe média carioca, ela foi presa com outros 10 jovens da mesma situação econômica. A acusação: tráfico de ecstasy.
Esse é um outro problema das baladas do século XXI. Por ser uma droga sintética, os baladeiros de plantão acreditam que o ecstasy não faz tanto mal como cocaína e heroína, mesmo porque a dócil balinha tem um aspecto de comprimido. O ecstasy provoca efeitos alucinógenos que deixa o usuário mais comunicativo, promovendo taquicardia, falência hepática aguda do fígado, lesões cerebrais, entre muitos outros problemas. Com apenas um comprimido é possível ter uma overdose.
Sem querer entrar muito nos deméritos do ecstasy e voltando aos méritos do filme de Mauro Lima, Meu Nome Não é Johnny vai além da bela fotografia opaca de Ulrich Burtin, que confere ao filme o ar denso e dramático do submundo do crime. Vai além das belas imagens do passeio de gôndola feito por João (Selton) e Sofia (Cléo Pires) em Veneza, que confere ao filme um visual chique. Vai além das cenas maniqueístas de João na prisão, que mistura momentos de tensão e humor. Aliás, as únicas cenas de humor do filme acontecem nesse cenário.
Mas a obra baseada na vida de João Guilherme Estrella não tem a pretensão de ser uma comédia pastelão típica dos roteiristas sem noção. Sem fazer qualquer julgamento dos personagens envolvidos na história, o mais importante é saber que o filme alcança seu objetivo, que é o de mostrar, mais uma vez, que o mundo sujo e virulento das drogas, com sua falsa promessa de dinheiro eternamente fácil, definitivamente não vale a pena.

sábado, 12 de janeiro de 2008

NOSSO RICO DINHEIRINHO

Por Joannes Lemos
O ano de 2007 terminava e os brasileiros de todas as classes sociais comemoravam em coro, afinal teríamos um imposto a menos para pagar com a extinção mais que bem-vinda da CPMF – Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira – um imposto teoricamente provisório que parecia ter se metamorfoseado em eterno há muitas e muitas arrecadações atrás.
Com o fim desse tributo, o governo deixaria de arrecadar cerca de R$ 40 bilhões por ano, de um total de R$ 680 bilhões que o governo arrecadou em 2007, representando 36% de todas as riquezas que o Brasil gerou no ano que terminou, o famoso PIB, que ficou na casa de R$ 1,8 trilhão. E a proporção não bate, porque temos o 8º PIB do mundo, e a segunda maior carga tributária sobre salários do planeta, perdendo apenas para a Dinamarca.
Apesar da derrota histórica do governo no Congresso, tirando da mesa dos tributos um prato portentoso, a equipe econômica de Lulinha Paz e Amor disse aos quatros ventos que o país iria se adequar com a perda da CPMF, com a promessa de cortar gastos públicos para recuperar parte do dinheiro que não mais seria arrecadado – entrando aí possíveis cortes no PAC – mas sem elevar ou criar outros impostos. Aliado a isso, os economistas avaliam que em 2008 o governo arrecadará mais com o crescimento da economia (cerca de R$ 10 bilhões a mais) o que ajudaria a tapar o buraco deixado pelo Imposto do Cheque.
Mas como tudo nessa vida muda, inclusive o projeto gráfico de A Gazeta, porque o governo não poderia mudar de opinião também? Pois é, com o brilho dos fogos de artifício da virada do ano a trupe do planalto teve lampejos súbitos, e decidiu anunciar novas medidas para compensar a perda da famigerada CPMF. Além do já anunciado corte de gastos públicos, que muitos duvidam que aconteça de fato, a galera de Brasília anunciou novos aumentos em dois impostos. O Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), cobrado nas operações de crédito e de câmbio de pessoas físicas e empresas, que subiu 0,38 %, e a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), cobrada sobre o lucro dos bancos e empresas, que subiu de 9% para 15%. Com essa medida, o governo pretende arrecadar mais R$ 10 bilhões.
O fato é que Lula e sua equipe não se entendem e não sabem o que falam. No dia 16 de dezembro Lula disse à imprensa: “Não existe razão para que alguém faça alguma loucura de tentar aumentar a carga tributária”. Mas como até papagaio fala, no dia 20 do mesmo mês Lula disse:
“Não quero ouvir a palavra pacote. Claro que, se precisar, podemos ter medidas administrativas”.
Acontece que a singela medida administrativa do governo provoca uma pequena ferida em nosso bolso, assim como a finada CPMF, que agora parece reencarnar em outras contribuições. E o que tanto queremos e pedimos não acontece: a discussão sobre a reforma tributária, tão necessária para um país que não consegue crescer mais do que 5% ao ano devido ao peso dos tributos.
Como se não bastasse, o Ministro da Fazenda, Ilustríssimo Senhor Guido Mantega, soltou a pérola – ou será provocação? : “O compromisso do presidente Lula era não promover alta de impostos em 2007. E de fato não fez. Estamos fazendo em 2008”.
Dormiremos com essa. E que venham mais fogos de artifício.